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10 de janeiro de 2014

À Beira do Penhasco

Marcada pela transparência, a Holman House, na Austrália, parece prestes a se lançar sobre o oceano.

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A busca por uma arquitetura que anda na corda bamba e não tem medo de ser bela tem sido o mote a nortear o australiano Neil Durbach em sua trajetória profissional, marcada pela concepção de projetos residenciais de linguagem intrincada e por vezes lúdica, onde se encontra de tudo, menos o óbvio. Famoso no mundo por criações arquitetônicas que, mesmo quando simples e minimalistas, se impõem pela ousadia de suas propostas e soluções, Durbach ostenta em seu currículo um arsenal de residências premiadas, entre as quais a Holman House é provavelmente a mais famosa. “Tanto a concepção como a execução do projeto foram inesquecíveis”, lembra o arquiteto do escritório Durbach Block Jaggers, que comanda em parceria com dois outros sócios. “Dez anos depois de concluída, ainda olhamos para ela e dizemos: Uau, deu tudo certo!”, comenta ele. E acrescenta: “Esse grau de insegurança é o fio condutor de todos os nossos projetos, pois acreditamos que só assim é possível incorporar coisas novas ao processo criativo”.

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Construída à beira de um penhasco em Dover Heights, em Sydney, a residência parece estar prestes a se lançar sobre o Oceano Pacífico em um voo sem volta. O design imponente da edificação é fortemente marcado pela transparência, caráter determinante para transmitir a sensação de estar pairando sobre o oceano. Seria a locação perfeita para uma refilmagem do clássico Um corpo que cai (Vertigo), de Hitchcock, tamanha é a sensação de que a casa pode despencar a qualquer momento. O resultado é de encher os olhos, e a vista que se tem de todas as dependências é espetacular. Mas, segundo seu criador, erguer uma residência à beira de um precipício ofereceu desafios, que não foram poucos. “Foi uma verdadeira aventura para toda a equipe”, comenta Durbach. “Afinal, a proposta era construir uma casa que de fato se projetasse em direção ao mar, a uma altura de mais de 70 metros.”

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Iniciado em 2004, o processo construtivo movimentou a pacata região dos arredores de Sydney, rodeada por construções pouco expressivas do ponto de vista arquitetônico, e atraiu a atenção de toda a população local. Redes de televisão sobrevoavam a casa constantemente para alertar sobre os perigos da erosão e checar se o pior não tinha acontecido. “Nem precisávamos ir até o local para checar o andamento da obra. Bastava ler o jornal local regularmente”, brinca Durbach.
A ousadia de Durbach e sua equipe contrariou o pessimismo daqueles que consideravam inviável a execução da obra em um local tão inóspito do ponto de vista construtivo. Quando concluído, o projeto se mostrou um exemplar único de construção residencial. “Recebi arquitetos do mundo todo, vindos de países considerados referências da arquitetura, como Japão e Holanda, ansiosos por conhecer de perto o resultado do projeto”, lembra Durbach. Em pouco tempo se tornou um ícone da arquitetura contemporânea, figurando nas capas de publicações em âmbito mundial e abocanhando alguns dos mais expressivos prêmios do setor.

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MONUMENTO AO OCEANO

Para rabiscar os primeiros traços do que viria a se tornar a bela Holman House, Neil Durbach foi buscar inspiração em um dos maiores artistas da era moderna. A obra “O banhista”, de Pablo Picasso, foi o ponto de partida para a concepção do projeto, basicamente composto por uma complexa série de espaços internos fluidos e orgânicos, orientados em função de um sinuoso perímetro que se curva, se dobra e se expande, sempre em resposta ao sol, à paisagem e à vista. Para todos eles, a opção foi pelo fechamento com amplas folhas de vidro extra clear da Pilkington que, instalados do piso ao teto, são responsáveis por uma interação direta e intensa com a paisagem. “Ao invés de ser passiva em relação à paisagem, a casa se projeta de forma agressiva e contundente em direção a ela. É corajosa”, comenta Harry Margalit, autor de uma monografia sobre o trabalho de Durbach.

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O vidro também atua como elemento estético quando em composição e contraste com outros materiais, como o concreto e, sobretudo, as pedras naturais que formam a parede do piso inferior, criando uma interação de superfícies, combinando suavidade e aspereza. “Aqui o objetivo foi estabelecer uma relação quase simbiótica com a geologia local, fazendo da parede uma extensão da superfície rochosa do penhasco abaixo. Essa superfície contínua se estende para formar o terraço”, diz o arquiteto. Segundo ele, todo o projeto foi concebido para servir o piso superior, que se ergue como um monumento, uma espécie de ode ao mar, formado por plataformas suspensas apoiadas em quatro vigas de aço.

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“O andar térreo se estabelece como um pedestal, uma base para a parte superior da casa, a estrela principal”, diz Durbach.“Estar no interior de suas formas sinuosas é uma verdadeira experiência, as extensas superfícies envidraçadas garantem uma visão sob ângulos variados e em todas as direções, sem que seja preciso sair do sofá. Temos a impressão de que as ondas vão chacoalhar a casa, tamanha a relação estabelecida com a natureza ao redor”, comenta o arquiteto. “Emoldurado pelo concreto, o vidro é o meio para a plena contemplação da natureza, onde se imprimem, como em uma tela, as mudanças de cor de cada elemento ao longo do dia.”

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Nem todos os ambientes, porém, contam com vidros de cima a baixo. “Não queríamos uma caixa envidraçada. Optamos por fechar algumas faces com concreto porque a proposta não é ter uma vista panorâmica o tempo todo”, explica Camilla Block, sócia de Durback e parceira criativa no projeto. “A ideia é propiciar ao observador diferentes formas de contemplar a paisagem, sob diferentes enquadramentos, de um modo mais cinematográfico”, descreve a arquiteta. Na sala de jantar, por exemplo, os vidros curvos estão instalados em uma parede de alvenaria maciça, enquadrando o mar e cortando do cenário a maior parte do céu. “Além disso, espelhos instalados em ângulos estratégicos ao longo da janela produzem reflexos surpreendentes dos jardins e da piscina, conforme nos movimentamos pelo espaço interno.”

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A proprietária da Holman House, Jennifer Holman, diz não encontrar palavras para descrever a sensação de tomar o café da manhã vendo as ondas crescendo sob seus pés. A melhor parte, segundo ela, foi reservada ao quarto, onde os vidros abrem vista para o espetáculo diário do nascer do sol sobre o azul profundo do Pacífico. “A ideia inicial era instalar cortinas. Mas depois de alguns dias pensamos: para quê?”

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Fonte: Vidro Impresso

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